Os bebês de usuárias de crack são as principais vítimas de um vício que cresce no país. São gerados por mulheres dependentes da droga e costumam nascer prematuros, com problemas respiratórios. Em alguns casos, com sequelas carregam pelo resto da vida. Na tentativa de diminuir os danos, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desenvolvem um medicamento para diminuir os riscos para a saúde dessas crianças, enquanto os bebês ainda estão na barriga das mães.
Conforme explica a pediatra Eliana de Souza, essas crianças são mais irritadiças, costumam dormir mal e se alimentar mal. “É uma síndrome de abstinência que a criança sofre”, afirma ela. Ainda de acordo com a médica, a sífilis congênita é uma doença comum entre os casos. Provocada por uma bactéria, ela é transmitida por meio de relações sexuais praticadas sem proteção, e pode ser passada para o filho durante a gravidez. “A criança pode nascer com doença neurológica, com convulsões. Existe tratamento, mas essa criança vai ter que ser acompanhada por uma equipe, pediatra, neurologista, nutricionista”, diz.
Além de enfrentar as consequências da droga, esses bebês podem sofrer com doenças sexualmente transmissíveis, passadas pela mãe contaminada. Um estudo do Ministério da Justiça mostrou que 2,6% dos usuários de crack têm hepatite C. A média nacionalde incidência da doença em pacientes não usuários da droga é de 1,38%. E a recorrência de Aids entre os viciados em crack é oito vezes maior que no restante da população.
O coordenador do Centro de Referência em Drogas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Frederico Garcia, a droga provoca o fechamento das artérias e prejudica o envio de oxigênio e nutrientes ao bebê. Os pesquisadores modificaram a estrutura da cocaína, que é a base do crack, para criar um novo medicamento. Testes em animais mostraram que eles desenvolveram anticorpos que bloqueiam cerca de 50% da passagem da cocaína pela placenta. Os filhotes já estão nascendo com menos problemas de saúde. Mas o coordenador alerta que o ideal seria interromper o uso da droga durante a gravidez.
Saúde frágil
A estudante Carolina diz que fumou crack durante toda a gravidez. Quem sofreu as consequências desse vício foi o filho Uziel. “Ele nasceu bem prematuro de 7 meses, com 1,9 quilo e 46 centímetros”, conta. E acrescenta ter recebido recomendações médicas para interromper o uso. “O médico falava, 'você tem que parar senão vai prejudicar o bebê'. Aí eu falava tá bom, vou parar. Mas nunca parava”, diz.
Quando o filho foi internado, ela encontrou forças para largar as drogas. “Teve problema respiratório por causa do pulmão, ficou muito tempo na incubadora por causa do peso dele”, relembra a mãe. Atualmente, Carolina tenta reverter o mal que fez ao próprio filho. “Chorei bastante. Falei que não queria mais isso para mim. Graças a Deus vai fazer dois meses que estou sem fumar, 'tô' fazendo tratamento”, relata.
Outra recém-nascida teve sífilis congênita; nasceu com 2,8 quilos. A recomendação médica é que ela mame de hora em hora, além de fazer exercícios pra ensiná-la a sugar. No último mês, ela engordou 300 gramas. Uma fonoaudióloga especializada em crianças prematuras faz o acompanhamento. Atualmente com dois meses, a menina passa as noites em claro. Segundo os médicos, é justamente o horário em que a mãe mais usava a pedra.
A educadora social Líbia Francisca relata que essas crianças precisam de mais atenção, mais carinho para amenizar as más condições em que nasceram.
Acolhida em abrigos
Muitas mães não conseguem largar as drogas e acabam por abandonar os filhos, ou perder a guarda pelas condições de risco às quais as crianças são expostas. Nestes casos, o primeiro lar desses recém-nascidos é um abrigo.
O juiz Marcos Padula, da Vara Cível da Infância e Juventude de Belo Horizonte, afirma que,
às vezes, a própria mãe se declara incapaz de cuidar da criança e entrega o bebê de forma espontânea. Ainda de acordo com ele, há casos de mulheres que já passam pela terceira, quarta, ou quinta gestação, e permanece dependente da droga. Muitas vezes, moram nas ruas.
Em uma casa localizada em Belo Horizonte, as funcionárias precisaram se adaptar a esse novo perfil de criança abrigada. Segundo a coordenadora do local, Walma de Souza, a criança chega com baixo peso, alimentação muito precária, não aceita a alimentação, e é bastante agitada.
A dependente química Marciléia é um exemplo dessa situação. Ela teve três filhos, atualmente criados por parentes, e usou crack durante a gestação do segundo bebê. “Minha bolsa rompeu era 23h e fiquei até às 11h do outro dia usando droga e me prostituindo”, revela. Sobre como é o filho, a usuária conta que ele é agitado, uma criança agressiva, hiperativo.
Também dependente e grávida do décimo bebê, Juliana Silveira não convive com os outros filhos. “Dentro de mim tem uma vida! Eu preciso de um apoio”, pede por ajuda. Mas, ao mesmo tempo, nega a oferta de uma Organização Não-Governamental (ONG) que ofereceu para levá-la ao hospital.
E um dos raros momento de lucidez, Juliana sonha com um futuro diferente para os filhos. “Eu quero ter filho lixeiro, eu quero ter filha doméstica, eu quero ter filha doutora, jornalista; mas com integridade, honestidade. Sempre! Conquista de vocês mesmos meus filhos”, aconselha.
Fonte: G1
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